quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Ponto Final



Que alguém te faça enxergar dentro do teu escuro
e mesmo no abSurDo
Escute
Que não aponte, não te culpe
Traga um novo significado
Ao crime daquele por si próprio condenado
E mostre que libertar é ser libertado
Pois o silêncio é sempre ponto final

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Instante

Quero ver-te frente ao silêncio
E verter em ti de todo um eu
Em um sentimento tão imenso
Que o meu eu seja o teu

E me esconder em seus cabelos
Por entre o tempo e suas horas
 No batom mais vermelho
Enrubescer alma afora

Então quando estiver frente ao espelho
Reconhecer já não mais sê-lo
Abraçar todos os medos

O suspiro sufocante
O suor entre meus dedos
 Aquele instante

E que o momento seja o sempre
O derradeiro não chegue agora
Se a tristeza vier vá sem demora
Mas se eu partir de mim se lembre

quinta-feira, 12 de julho de 2018

João Sapateiro



Os meus pés são terra revirada por diferentes passos e na longa caminhada um rastro se encerra, entre tantos percalços, ainda que não finda a andada.

E são tantas as ruas a gastarem solados, que me pergunto o que a vida consome dos descalços, o couro esfolado, a carne exposta, são tantas as perguntas e tão poucas as respostas.

No asfalto rachado os paralelepípedos emergem. O tempo revela e esquece. Enegrece o branco das fachadas das velhas igrejas, construções coloniais e casarões. Em um mesmo tom de negro do jugo e grilhões.

 Marcas  de um passado já distante, mas não esquecido, reescrito na pele o mesmo antes no agora pois há sempre o oprimido, o subjugado ... e apesar de minhas mãos e todos estes calos sigo com a palavra empunhada porque um homem é escravo não do que diz, mas, sim, do que cala.


 "Quem não trabalha não come é conversa muito falha, porque só vemos com fome o povo que mais trabalha."





* Homenagem ao centenário de João Sapateiro e a Laranjeiras

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Convocacão à Pedra

*Texto premiado no concurso Mario Jorge de Poesias

O rio ainda segue o curso
No vazio a voz reverbera
Persiste a pulsar o pulso
Pois a flor continua pedra

O agora permanece amargo
Em demasiada e exaustiva espera
O transitório é permanente estrago
Botas ameaçam pisar a terra

Velhas bocas querem calar o gesto
Silenciar palavras
Mas do peito desencasula a larva
Em um grito manifesto

Borboletas de sangue
Tingem um novo amanhecer
O pólen, a flor e o tanque
Coragem dos que tem no lutar um já vencer

O suor que umedece o chão
É João
As mãos que colhem os pés
São Josés

Pagos com mínimo tostão
Como todo Barnabé
No entanto, esta terra que pouco a pouco nossos corpos sorve

Como substrato, não apenas parte, mas também essência
Há de ver toda esta massa se levantar em resistência
Então seremos todos Mário Jorge

* Homenagem ao poeta aracajuano Mário Jorge, morto em 1973 aos 26 anos em um acidente de carro.